Esses pássaros da manhã,
de disposição invejável,
estão aqui, como não estão
e cantam.
Fazem uma doce ronda,
em volta das casas e das árvores
e numa manhã destas,
despertam a poesia.
E não calam,
não calam.
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Concepção
Vivo absolutamente tudo que me é apresentado.
O que é de sofrer,
sem dó nem piedade,
o que é de gozar,
sem medo e pudor.
O que é de sofrer,
sem dó nem piedade,
o que é de gozar,
sem medo e pudor.
Diariamente
Há dias em que sou de luta,
outros, de poesia.
Quando sou dos dois,
me sinto indestrutível.
outros, de poesia.
Quando sou dos dois,
me sinto indestrutível.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Quente
E eu ainda me impressiono com a paixão.
Ela é que até pode ter se acostumado comigo,
mas eu não me nego,
me atiro.
Refresco pra mim é lava de vulcão,
com paixão, ou se deixa lambuzar ou nem lambe.
A razão eu deixo para as convenções de
nascer,
crescer,
reproduzir,
morrer.
Estou aqui é para o repouso do que quer arder.
Ela é que até pode ter se acostumado comigo,
mas eu não me nego,
me atiro.
Refresco pra mim é lava de vulcão,
com paixão, ou se deixa lambuzar ou nem lambe.
A razão eu deixo para as convenções de
nascer,
crescer,
reproduzir,
morrer.
Estou aqui é para o repouso do que quer arder.
domingo, 20 de janeiro de 2008
Frustração
Desde sempre a incoerência.
O que pouco se mostra é o que vejo,
em tarde de sol esqueci-me as cortinas fechadas,
em dias de chuva saí de sandálias.
Do avesso ao vício, só os da mesma estirpe notam minhas virtudes mutantes.
Sonhei com piqueniques no parque
e afeto no café da manhã.
A hipocrisia me faz correta,
o correto faz que eu me traia
e a sensatez me deixa um tanto infeliz.
Estrada
Essa coisa de ausência
de tchau, de boa sorte,
essa estrada,
que longa ou não, assombra e desampara.
Esse vaidoso destino,
é diferente pra cada um na sua malandragem.
Ausência é coisa que não se faz.
Saudade é coisa que não se dá.
Esse hábito,
esse vício,
essa gente que me gruda e que me deixa,
que eu deixo.
Abstinência do me é alívio,
falta do que me alimenta sem engordar.
Há afeto e distância,
há rotina e estrada.
de tchau, de boa sorte,
essa estrada,
que longa ou não, assombra e desampara.
Esse vaidoso destino,
é diferente pra cada um na sua malandragem.
Ausência é coisa que não se faz.
Saudade é coisa que não se dá.
Esse hábito,
esse vício,
essa gente que me gruda e que me deixa,
que eu deixo.
Abstinência do me é alívio,
falta do que me alimenta sem engordar.
Há afeto e distância,
há rotina e estrada.
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
abandono
Digo que não pense em mim, que não me procure,
que me deixe tentar fechar essa ferida que já se abriu.
Mas eu perco pra mim mesma.
Eu ligo, eu penso desesperadamente,
eu lambo essa ferida como se fosse a única dor de infinito prazer.
Porque a dor se chama você.
É uma dor de cabelos negros,
é uma dor cujo corpo já foi meu na intensa entrega do sentimento.
A dor que eu tenho tem dois dedos do pé, grudadinhos
e gargalha bem alto quando eu faço piadas sem graça.
Minha angústia é você.
É você o anjo que esqueceu de ser puro,
que desceu pra cá com desejo e sentimento
e capacidade de sentir na carne que os anjos não têm,
essa dor também,
a nossa dor.
E eu te entendo, mas te quero.
O querer tira a sua razão em me deixar,
o querer me faz ter medo e lhe deixar.
Mas eu lhe quis desde que seu corpo me apareceu crescido
e desde que você me apareceu ouvindo Chico,
não tenho pernas para sair de nós.
que me deixe tentar fechar essa ferida que já se abriu.
Mas eu perco pra mim mesma.
Eu ligo, eu penso desesperadamente,
eu lambo essa ferida como se fosse a única dor de infinito prazer.
Porque a dor se chama você.
É uma dor de cabelos negros,
é uma dor cujo corpo já foi meu na intensa entrega do sentimento.
A dor que eu tenho tem dois dedos do pé, grudadinhos
e gargalha bem alto quando eu faço piadas sem graça.
Minha angústia é você.
É você o anjo que esqueceu de ser puro,
que desceu pra cá com desejo e sentimento
e capacidade de sentir na carne que os anjos não têm,
essa dor também,
a nossa dor.
E eu te entendo, mas te quero.
O querer tira a sua razão em me deixar,
o querer me faz ter medo e lhe deixar.
Mas eu lhe quis desde que seu corpo me apareceu crescido
e desde que você me apareceu ouvindo Chico,
não tenho pernas para sair de nós.
quinta-feira, 1 de novembro de 2007
As aparências enganam
Perto de onde trabalhavam operários de uma pequena cidade, morava alguém incomum. Uma mulher de meia idade, cabelos branqueando e velhos colares. Ela não era incomum por ter algum tipo de atitude decente que a fizesse diferente dos demais idiotas da redondeza. O que a fazia ser lembrada era sua mão esquerda, com apenas três dedos - seu vizinho, o pai de todos e o fura bolo - cujas unhas pintadas de esmalte prateado faziam com que ela lembrasse do triste episódio que a marcaria para sempre.
A estranha mulher fora atacada por uma cobra que tinha pernas. A cobra com pernas abocanhou seus dois dedos - o mindinho e o mata piolho - e isso fez da quase velha, uma pessoa amarga e rejeitada. Suas unhas, da mão direita estavam sempre incolores e feias, já que com apenas os três dedos - seu vizinho, o pai de todos e o fura bolo - ela não conseguia pintar de prateado as unhas. Portanto apenas os três dedos da mão esquerda tinham as unhas prateadas. Até que um gato persa apareceu em sua porta, lhe dando a atenção que ninguém dava, tudo por conta dos dois dedos - o mindinho e o mata piolho - que a cobra de duas pernas havia comido. E o gato persa lhe pintava as unhas de todos os dedos e as unhas reluziam um prata vivo, alegre... até que um dia... ao tirar o esmalte da mão com os cinco dedos, a mão direita, o gato inalou acetona e morreu, chapado, locasso. A velha ficou outra vez com cinco unhas incolores e apenas três dedos da mão esquerda com as unhas prateadas.
Já não havia mais razão para viver. Tomada pela raiva e a rejeição do mundo, a mulher de meia idade, além de ter dois dedos da mão esquerda comidos por uma cobra de duas pernas, decepou seu seio direito e passou a freqüentar um bar da cidade, onde bebia e fumava sem parar.
Um dia, chegou no bar um homem que não era como todos os babacas que sempre estavam lá ignorando aquela amargurada mulher. E ela se apaixonou, ele a amou e os dois foram felizes, mesmo ela tendo apenas três dedos na mão esquerda, com as unhas prateadas e os outros cinco dedos da mão direita, incolores e um seio decepado. Isso tudo porque o universo conspira. Os dois partilhavam da mesma dor, já que ele, o cara que não era babaca, teve o pênis abocanhado, também pela cobra de duas pernas.
Com o passar de algum tempo, o jovem senhor sem pênis descobre a veracidade do velho ditado: as aparências enganam. Sendo feia, a velha era rejeitada. Mas, não era rejeitada apenas porque era feia. Seu humor era tenebroso. Vingativa, ciumenta, manipuladora. Já não bastava a cobra ter-lhe comido o falo, agora a mulher queria arracar-lhe os bagos?
Fez-se impor: colocou veneno na comida dela, com o dinheiro que ela deixou fez um implante de pênis e casou com uma menina novinha, que pinta as unhas de rosa-claro.
Stella, Lari, Mathe, Indi e Fabi
Autores reunidos jamais serão vencidos pela lucidez deste mundo real sem graça alguma.
A estranha mulher fora atacada por uma cobra que tinha pernas. A cobra com pernas abocanhou seus dois dedos - o mindinho e o mata piolho - e isso fez da quase velha, uma pessoa amarga e rejeitada. Suas unhas, da mão direita estavam sempre incolores e feias, já que com apenas os três dedos - seu vizinho, o pai de todos e o fura bolo - ela não conseguia pintar de prateado as unhas. Portanto apenas os três dedos da mão esquerda tinham as unhas prateadas. Até que um gato persa apareceu em sua porta, lhe dando a atenção que ninguém dava, tudo por conta dos dois dedos - o mindinho e o mata piolho - que a cobra de duas pernas havia comido. E o gato persa lhe pintava as unhas de todos os dedos e as unhas reluziam um prata vivo, alegre... até que um dia... ao tirar o esmalte da mão com os cinco dedos, a mão direita, o gato inalou acetona e morreu, chapado, locasso. A velha ficou outra vez com cinco unhas incolores e apenas três dedos da mão esquerda com as unhas prateadas.
Já não havia mais razão para viver. Tomada pela raiva e a rejeição do mundo, a mulher de meia idade, além de ter dois dedos da mão esquerda comidos por uma cobra de duas pernas, decepou seu seio direito e passou a freqüentar um bar da cidade, onde bebia e fumava sem parar.
Um dia, chegou no bar um homem que não era como todos os babacas que sempre estavam lá ignorando aquela amargurada mulher. E ela se apaixonou, ele a amou e os dois foram felizes, mesmo ela tendo apenas três dedos na mão esquerda, com as unhas prateadas e os outros cinco dedos da mão direita, incolores e um seio decepado. Isso tudo porque o universo conspira. Os dois partilhavam da mesma dor, já que ele, o cara que não era babaca, teve o pênis abocanhado, também pela cobra de duas pernas.
Com o passar de algum tempo, o jovem senhor sem pênis descobre a veracidade do velho ditado: as aparências enganam. Sendo feia, a velha era rejeitada. Mas, não era rejeitada apenas porque era feia. Seu humor era tenebroso. Vingativa, ciumenta, manipuladora. Já não bastava a cobra ter-lhe comido o falo, agora a mulher queria arracar-lhe os bagos?
Fez-se impor: colocou veneno na comida dela, com o dinheiro que ela deixou fez um implante de pênis e casou com uma menina novinha, que pinta as unhas de rosa-claro.
Stella, Lari, Mathe, Indi e Fabi
Autores reunidos jamais serão vencidos pela lucidez deste mundo real sem graça alguma.
sábado, 27 de outubro de 2007
Bienvenidos
Desde sempre, o Paraguai é um país atrativo. O comércio de importados e outras quinquilharias sempre levou Brasileiros a cruzarem a fronteira brasileira Foz do Iguaçu, no Paraná, com a de Ciudad del Leste. Isso é tão tradicional quanto encontrar o litoral de Santa Catarina invadido por hermanos paraguaios, argentinos e outros latino-americanos. Assim como também vão a Argentina, através de Barracão ou mesmo Foz, brasileiros ávidos pela boa cerveja argentina engarrafadas em litros, o doce de leite, os torrones, os alfajores, os enlatados, os tecidos e é claro, o cassino.
Mas o Paraguai vai muito além deste turismo consumista. É na Ponte da Amizade que cruzam os mais fascinantes profissionais do comércio. Logo que chegamos, cedinho numa manhã de sexta-feira, o movimento já era significante. O calor ainda não tinha mostrado suas chamas e o aspecto, visto do começo da ponte ainda não era a realidade que se encontra lá dentro.
Motocicletas velhas, carros sujos, bicicletas por toda a parte e muita gente caminhando freneticamente. Homens de calça social e camisa branca, etiquetados com crachás passavam em minutos do Brasil para o Paraguai, com hora marcada para iniciar a jornada. Montes e montes de pessoas que apuravam o passo eram, como eu, notoriamente de fora, distantes daquela realidade de fronteira.
Cruzei a ponte com uma sensação de isolamento de todo o resto daquela gente que queria comprar. Melancolicamente eu pensava no quão é ilimitado o espaço e o tempo ali. Eu estava num outro país da América Latina. Assim que finalizei a ponte, o que se abriu em minha frente foi a famosa visão do inferno que me encantou.
Ruas imundas e fedorentas, num cheiro que mistura churrasquinho grego, esgoto, mofo e urina. As paredes de todos os lugares são sujas, emboloradas, sem pintura e sempre há em algum canto um balde já cheio, onde pingam sem parar gotas de uma água marrom que eu não sei de onde vem. Nos shoppings ou nos camelôs das ruas tudo é da mesma forma. Garotos e garotas que empacotam, lacram e despacham mercadorias. Gente com mochila, sacola e mãos cheias. Gritos de ofertas, câmbio, publicidade que sai da garganta daquela gente com traços indígenas, bugres, americanos.
Há quem esteja por lazer, depois de ter tomado um belo café em algum resort de Foz do Iguaçu, há quem tenha saído de sua cidade apenas para conhecer ou para comprar por mais barato e há quem esteja lá por acaso da rotina, por trabalho. Os sacoleiros, muambeiros ou contrabandistas, como costumam ser chamados estes verdadeiros heróis da fronteira.
Brasileiros sagazes, cheios de manha e jeitinho. Certos ou errados, não me importa. Estão numa luta diária que faz chegar até nossas mãos produtos sonhados por nós. Homens e mulheres que entram e saem de becos cheirando a mijo como se estivessem num labirinto, mas que sabem muito bem o caminho para sair e voltar quantas vezes for necessário. É calor. O suor está em todos os corpos que circulam ali. Os cabelos desarrumados em meio a tantas coisas pra carregar e pensar no preço, na qualidade, na garantia e em como passar pela aduana.
Todas as relações no Paraguai parecem ser de negócio, de troca, de disputa, de esperteza. Os imigrantes do Oriente Médio são simpáticos, porém não vacilam em descontos. Oferecem o produto e baixam muito pouco o valor. As mulheres com turbantes pelas ruas, exibem anéis, brincos e colares de ouro. Ishalá!
Os nipo-brasileiros podem ser encontrados mais nas lojas de eletrônicos, mais reservados. Os brasileiros estão vendendo em todas as lojas de todas as coisas, mas pensam em dólar. Esses sim, sempre ajudam nos descontos. E os anfitriões disso tudo também estão em todas, falando um portunhol arranhado e cambiando, sempre!
Passar a ponte num calor infernal depois de um dia exaustivo é uma condição quase sobre-humana. O medo de perder mercadoria declarada legalmente dentro da cota de U$ 300 e de ser pego com aquelas que estão por dentro das calças, das meias, nos bolsos, na mochila. É uma tensão. Na aduana, depois da ponte, a prova de fogo é mostrar tudo o que há de certinho para o pessoal da receita federal. Porque mesmo o certo, muitas vezes não é perdoado. É preciso chegar no Brasil e vender. Lucrar, sustentar-se daquilo. O Paraguai é a mistura da sujeira, da pobreza e do consumismo, do capitalismo, da superficialidade social. Não existe resistência. Quem vai pra não comprar nada sai com algum eletrônicozinho, um perfume importado, uma lembrança, um presente pra alguém. Ao fim da viagem, alguns voltam para os resorts, vestem roupa de banho e aproveitam a piscina. Outros, enfrentam horas de viagem e barreiras policiais, algumas bem, outras mal intencionadas.
Mas o Paraguai vai muito além deste turismo consumista. É na Ponte da Amizade que cruzam os mais fascinantes profissionais do comércio. Logo que chegamos, cedinho numa manhã de sexta-feira, o movimento já era significante. O calor ainda não tinha mostrado suas chamas e o aspecto, visto do começo da ponte ainda não era a realidade que se encontra lá dentro.
Motocicletas velhas, carros sujos, bicicletas por toda a parte e muita gente caminhando freneticamente. Homens de calça social e camisa branca, etiquetados com crachás passavam em minutos do Brasil para o Paraguai, com hora marcada para iniciar a jornada. Montes e montes de pessoas que apuravam o passo eram, como eu, notoriamente de fora, distantes daquela realidade de fronteira.
Cruzei a ponte com uma sensação de isolamento de todo o resto daquela gente que queria comprar. Melancolicamente eu pensava no quão é ilimitado o espaço e o tempo ali. Eu estava num outro país da América Latina. Assim que finalizei a ponte, o que se abriu em minha frente foi a famosa visão do inferno que me encantou.
Ruas imundas e fedorentas, num cheiro que mistura churrasquinho grego, esgoto, mofo e urina. As paredes de todos os lugares são sujas, emboloradas, sem pintura e sempre há em algum canto um balde já cheio, onde pingam sem parar gotas de uma água marrom que eu não sei de onde vem. Nos shoppings ou nos camelôs das ruas tudo é da mesma forma. Garotos e garotas que empacotam, lacram e despacham mercadorias. Gente com mochila, sacola e mãos cheias. Gritos de ofertas, câmbio, publicidade que sai da garganta daquela gente com traços indígenas, bugres, americanos.
Há quem esteja por lazer, depois de ter tomado um belo café em algum resort de Foz do Iguaçu, há quem tenha saído de sua cidade apenas para conhecer ou para comprar por mais barato e há quem esteja lá por acaso da rotina, por trabalho. Os sacoleiros, muambeiros ou contrabandistas, como costumam ser chamados estes verdadeiros heróis da fronteira.
Brasileiros sagazes, cheios de manha e jeitinho. Certos ou errados, não me importa. Estão numa luta diária que faz chegar até nossas mãos produtos sonhados por nós. Homens e mulheres que entram e saem de becos cheirando a mijo como se estivessem num labirinto, mas que sabem muito bem o caminho para sair e voltar quantas vezes for necessário. É calor. O suor está em todos os corpos que circulam ali. Os cabelos desarrumados em meio a tantas coisas pra carregar e pensar no preço, na qualidade, na garantia e em como passar pela aduana.
Todas as relações no Paraguai parecem ser de negócio, de troca, de disputa, de esperteza. Os imigrantes do Oriente Médio são simpáticos, porém não vacilam em descontos. Oferecem o produto e baixam muito pouco o valor. As mulheres com turbantes pelas ruas, exibem anéis, brincos e colares de ouro. Ishalá!
Os nipo-brasileiros podem ser encontrados mais nas lojas de eletrônicos, mais reservados. Os brasileiros estão vendendo em todas as lojas de todas as coisas, mas pensam em dólar. Esses sim, sempre ajudam nos descontos. E os anfitriões disso tudo também estão em todas, falando um portunhol arranhado e cambiando, sempre!
Passar a ponte num calor infernal depois de um dia exaustivo é uma condição quase sobre-humana. O medo de perder mercadoria declarada legalmente dentro da cota de U$ 300 e de ser pego com aquelas que estão por dentro das calças, das meias, nos bolsos, na mochila. É uma tensão. Na aduana, depois da ponte, a prova de fogo é mostrar tudo o que há de certinho para o pessoal da receita federal. Porque mesmo o certo, muitas vezes não é perdoado. É preciso chegar no Brasil e vender. Lucrar, sustentar-se daquilo. O Paraguai é a mistura da sujeira, da pobreza e do consumismo, do capitalismo, da superficialidade social. Não existe resistência. Quem vai pra não comprar nada sai com algum eletrônicozinho, um perfume importado, uma lembrança, um presente pra alguém. Ao fim da viagem, alguns voltam para os resorts, vestem roupa de banho e aproveitam a piscina. Outros, enfrentam horas de viagem e barreiras policiais, algumas bem, outras mal intencionadas.
sábado, 20 de outubro de 2007
Literatura Barata
Miro gostava de ver seu avô na sapataria. Gostava também das senhoras que levavam os sapatos dos maridos para o conserto. Era Miro quem as atendia. Jovens senhoras, com os peitos bem apertados na blusa e a saia justa na bunda levantada pela meia-calça. Todas davam um jeitinho de achar estragos nos calçados de seus homens para irem até a sapataria do velho. Miro era ainda muito jovem para saber por que suas calças apertavam no meio das pernas, por trás do balcão.
Literatura Barata
Ela queria que fosse diferente, sempre quis. Nilson não era o homem que ela sempre sonhou, mas que mal tinha tentar amá-lo? Tudo bem que ela queria sentir calafrios quando ele a tocava e queria arder em desejos todas as vezes que o marido chegava do trabalho e queria porque queria trepar. Ela não sentia é nada, coitada.
Nilson era bruto, mas só queria a esposa. Ele a amava tanto que nunca percebeu a falta de apetite dela.
E ela que se esforçava tanto, a pobre.
Nilson era bruto, mas só queria a esposa. Ele a amava tanto que nunca percebeu a falta de apetite dela.
E ela que se esforçava tanto, a pobre.
Literatura Barata
Sempre doce com seu filho, Mirian era o exemplo de mãe a ser seguido.
Preparava o lanche, arrumava a roupa para o dia seguinte, conferia o material da escola.
Acariciava o tempo todo, todos os dias, a foto do menino. Que injustiça divina um filho morto com uma mãe tão dedicada.
Preparava o lanche, arrumava a roupa para o dia seguinte, conferia o material da escola.
Acariciava o tempo todo, todos os dias, a foto do menino. Que injustiça divina um filho morto com uma mãe tão dedicada.
Literatura Barata
A pequena Isabela sentava-se todos os dias na varanda de sua casa. Ficava ali, quietinha enquanto as pessoas passavam apressadas pela calçada.
Era como um ritual para ela. Gostava de ouvir os carros, as conversas, os passos. Era uma ouvinte atenta.
Ela só não sabia por que não conseguia enxergar tudo o que emitia aqueles sons.
Era como um ritual para ela. Gostava de ouvir os carros, as conversas, os passos. Era uma ouvinte atenta.
Ela só não sabia por que não conseguia enxergar tudo o que emitia aqueles sons.
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
No jornal...
Bate a porta na cara da solidão.
Pra avenida resolver.
Vermelho, verde.
Bate o pé inquieta.
Olha para as pessoas.
Verde,
amarelo
vermelho.
Vá!
Cuidado!
Páre!
Vermelho, verd...
"Garota atropelada já havia tentado suicídio mais de uma vez"
Aqui jaz, mais uma vez.
Pra avenida resolver.
Vermelho, verde.
Bate o pé inquieta.
Olha para as pessoas.
Verde,
amarelo
vermelho.
Vá!
Cuidado!
Páre!
Vermelho, verd...
"Garota atropelada já havia tentado suicídio mais de uma vez"
Aqui jaz, mais uma vez.
terça-feira, 25 de setembro de 2007
ah, minha saúde....
Não gasto meu tempo ou dinheiro indo ao médico, ao dentista ou ao oftalmologista. Uma vez gastei 300 paus com psicanálise, os quais emprestei e até hoje não consegui pagar. Foi um dinheiro que investi apenas para ficar com mais medo da minha gigante hipocrisia. Ela ali sentada me ouvindo e eu pagando sem ter coragem pra dizer que... e que...., e olha só, eu.... .
quarta-feira, 19 de setembro de 2007
Vertigem
Abstenha-se.
Deixe para lá qualquer coisa que lhe reste,
porque tudo é sensação.
Um ato involuntário do seu corpo,
essa sombra cintilante,
que desgruda e revela então,
do que é que estamos encobertos
e há duas coisas separadas aí.
Um duelo entre o que é real e qual é o disfarce.
O que desprende não pertence a nada.
O que fica,
desnudo,
em carne viva,
é o que é.
Não se vê na lucidez
nem se sente em outra pele,
nem se pensa o que os livros podem dar
e eu penso.
Para onde foi o que desprendeu?
Quem ficou?
E se você ainda precisar,
ah! todos precisam vestir-se daquilo que não é,
que não há.
Não se pode voltar,
não deixe voltar.
Deixe para lá qualquer coisa que lhe reste,
porque tudo é sensação.
Um ato involuntário do seu corpo,
essa sombra cintilante,
que desgruda e revela então,
do que é que estamos encobertos
e há duas coisas separadas aí.
Um duelo entre o que é real e qual é o disfarce.
O que desprende não pertence a nada.
O que fica,
desnudo,
em carne viva,
é o que é.
Não se vê na lucidez
nem se sente em outra pele,
nem se pensa o que os livros podem dar
e eu penso.
Para onde foi o que desprendeu?
Quem ficou?
E se você ainda precisar,
ah! todos precisam vestir-se daquilo que não é,
que não há.
Não se pode voltar,
não deixe voltar.
segunda-feira, 17 de setembro de 2007
Trivial
Quero ao meu lado apenas quem aceite,
como presente de Natal, uma poesia.
Procuro por quem não acredita muito no Natal,
mas como eu, sente uma certa ansiedade pelo revellion.
Mas quem, como eu,
se pergunta para onde vão as pombas no fim da tarde?
E quem as percebe no cedo da manhã?
Pra onde mesmo é que elas vão?
E quem, como eu,
procura borboletas em volta de ti?
E quem é que ainda canta,
adeus ano velho, feliz ano novo?
Se me dizes que o fazes sem restrições,
ficarei ao teu lado,
até que o fogo não se apague,
nem com a água mais límpida.
como presente de Natal, uma poesia.
Procuro por quem não acredita muito no Natal,
mas como eu, sente uma certa ansiedade pelo revellion.
Mas quem, como eu,
se pergunta para onde vão as pombas no fim da tarde?
E quem as percebe no cedo da manhã?
Pra onde mesmo é que elas vão?
E quem, como eu,
procura borboletas em volta de ti?
E quem é que ainda canta,
adeus ano velho, feliz ano novo?
Se me dizes que o fazes sem restrições,
ficarei ao teu lado,
até que o fogo não se apague,
nem com a água mais límpida.
quinta-feira, 30 de agosto de 2007
A necessidade do caos que não se deseja
Há algo rompido dentro de mim,
um amor, uma coisa que nunca decifrei ao certo.
Há uma dor e um pedaço sem cor,
uma flor sem pétalas
uma borboleta que fugiu do meu estômago.
Do jeito que era,
um rompimento comigo mesma,
com metade de mim.
Chegou, enfim, o caos indesejado e necessário
a dor que vai me resgatar
a ausência que vai me matar
uma partícula triste de um adeus presente
nos separamos sem sair dos nossos lugares
teu lugar sempre foi dentro de mim mas eu estive sempre
do teu lado de fora
e não demora,
estarei suspensa até do teu quintal bonito.
um amor, uma coisa que nunca decifrei ao certo.
Há uma dor e um pedaço sem cor,
uma flor sem pétalas
uma borboleta que fugiu do meu estômago.
Do jeito que era,
um rompimento comigo mesma,
com metade de mim.
Chegou, enfim, o caos indesejado e necessário
a dor que vai me resgatar
a ausência que vai me matar
uma partícula triste de um adeus presente
nos separamos sem sair dos nossos lugares
teu lugar sempre foi dentro de mim mas eu estive sempre
do teu lado de fora
e não demora,
estarei suspensa até do teu quintal bonito.
Ao Barzotto
Abaixo o orgulho
Enfim, seus olhos outra vez.
O perdi no caminho,
aprontei,
sofri sem você, pode acreditar.
O desdenhei,
fiz uma coletânea de todos os seus defeitos -
os que são de fato e os que inventei.
Bradei ódio e orgulho
enquanto sentia falta de como nos compreendemos
de como precisamos apenas nos olhar.
Tive medo do nunca mais você comigo
tantas vezes desviei o olhar – pra você não me entender
e perceber que era só da gente que eu precisava.
Corri da vontade de abraçar você e só aceitei isso,
quando num sono curto nos abraçamos outra vez.
No fundo eu até gosto das suas fúrias,
do seu relaxo com as coisas que eu me preocupo.
Eu só gosto de enxergar você em algum lugar,
saber que está perto,
saber que estamos perto.
Enfim, seus olhos outra vez.
O perdi no caminho,
aprontei,
sofri sem você, pode acreditar.
O desdenhei,
fiz uma coletânea de todos os seus defeitos -
os que são de fato e os que inventei.
Bradei ódio e orgulho
enquanto sentia falta de como nos compreendemos
de como precisamos apenas nos olhar.
Tive medo do nunca mais você comigo
tantas vezes desviei o olhar – pra você não me entender
e perceber que era só da gente que eu precisava.
Corri da vontade de abraçar você e só aceitei isso,
quando num sono curto nos abraçamos outra vez.
No fundo eu até gosto das suas fúrias,
do seu relaxo com as coisas que eu me preocupo.
Eu só gosto de enxergar você em algum lugar,
saber que está perto,
saber que estamos perto.
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
Não há solidão na noite, não sempre
Na madrugada ela sentava-se em qualquer lugar que não lhe oferecesse mal estar. Esperava encontrar alguma boa conversa, ao menos alguém que apreciasse o momento como ela. Bebia, sem demora copos de uísque com guaraná. Gelo, nem sempre. Enquanto ficava em silêncio, apenas na companhia de sons distantes, ela mordia os lábios, arrancando a pele que insistia em lhe incomodar. Mariana não gostava da solidão, passou a enfrentá-la quando sentiu-se pior ao lado de alguém do que se estivesse só.
Naquela noite fazia frio. Um vento impiedoso e a sensação térmica que visitava os baixos graus dos termômetros. As mãos de Mariana, congeladas e com uma cor púrpura iam a boca a cada crise de tosse. Estava denunciada na cor das mãos e no peito carregado os problemas respiratórios e de circulação. Sempre lírica, Mariana acreditava que seu sangue pouco percorria suas extremidades por não vir com força do coração. Até aí, biologia. Mas Mariana sabia que de um modo ou outro seu coração estava fraco. Não a ponto de nenhuma tragédia nos hospitais da cidade, mas um sintoma de sofrimento que apenas ela, que só ela sabia sentir.
A menina continuava solitária aos goles e tragadas. Pensava sobre o que lhe haviam dito, em palavras ríspidas e medíocres, vindo deles todos que a repreendiam. A bebida não terminava no copo e Mariana refazia. Duas pedras de gelo, um grande pouco de uísque e o resto de guaraná. Sentia ali, naquela relação íntima com o copo de plástico, uma melancolia de tempos que se foram. Dos carnavais que brincava animada sem se importar com as músicas, das loucuras dos dias de folia que tinha um perfume chamado Natu Nóbilis e do quanto pensava ainda estar salva: “apenas no carnaval”. Mariana não tinha cara nem jeito de boa moça. Boa moça não era, mesmo.
Na cabeça, mil poemas que ao chegar em casa jamais lembraria. O poeta, pelo hábito de bebericar por aí deve ter a mão, facilmente papel e caneta. A sobriedade não lhe serve, mas a amnésia alcoólica acaba com sua arte. Mas Mariana não era poeta nem coisa nenhuma de que pudesse se orgulhar, nem que pudesse orgulhar àqueles que ela mais amava.
Mariana escondia nos minutos do cigarro a sua não vontade de ir embora e no tempo que passava com o copo ainda cheio nas mãos repetia a si mesma: só mais este. E mais este, e mais este, e mais este... Sem final. Ela queria tudo sem fim. O cigarro, o copo, os beijos que já dera, as noites de amor sem amor, a falta de compromisso, a conversa com uma amiga de sempre, a noite. Mariana não suportava o fim de cada coisa porque queria entender tudo naquela noite. Queria escrever um livro com cada gota do uísque, com cada fragmento de fumaça no ar.
Ah, menina levada essa. Sempre pela rua, pelos bares, pelos postos... tinha sede, tinha falta de calor das pessoas. Queria que qualquer vagabundo como ela a encontrasse ali. Paralisada, preguiçosa, satisfeita com apenas aquilo ali. Sempre encontrava alguém. Sempre ia pra casa depois de um tchau e mesmo odiando cada despedida de cada ser na face da terra, ela não era tão só assim.
Naquela noite fazia frio. Um vento impiedoso e a sensação térmica que visitava os baixos graus dos termômetros. As mãos de Mariana, congeladas e com uma cor púrpura iam a boca a cada crise de tosse. Estava denunciada na cor das mãos e no peito carregado os problemas respiratórios e de circulação. Sempre lírica, Mariana acreditava que seu sangue pouco percorria suas extremidades por não vir com força do coração. Até aí, biologia. Mas Mariana sabia que de um modo ou outro seu coração estava fraco. Não a ponto de nenhuma tragédia nos hospitais da cidade, mas um sintoma de sofrimento que apenas ela, que só ela sabia sentir.
A menina continuava solitária aos goles e tragadas. Pensava sobre o que lhe haviam dito, em palavras ríspidas e medíocres, vindo deles todos que a repreendiam. A bebida não terminava no copo e Mariana refazia. Duas pedras de gelo, um grande pouco de uísque e o resto de guaraná. Sentia ali, naquela relação íntima com o copo de plástico, uma melancolia de tempos que se foram. Dos carnavais que brincava animada sem se importar com as músicas, das loucuras dos dias de folia que tinha um perfume chamado Natu Nóbilis e do quanto pensava ainda estar salva: “apenas no carnaval”. Mariana não tinha cara nem jeito de boa moça. Boa moça não era, mesmo.
Na cabeça, mil poemas que ao chegar em casa jamais lembraria. O poeta, pelo hábito de bebericar por aí deve ter a mão, facilmente papel e caneta. A sobriedade não lhe serve, mas a amnésia alcoólica acaba com sua arte. Mas Mariana não era poeta nem coisa nenhuma de que pudesse se orgulhar, nem que pudesse orgulhar àqueles que ela mais amava.
Mariana escondia nos minutos do cigarro a sua não vontade de ir embora e no tempo que passava com o copo ainda cheio nas mãos repetia a si mesma: só mais este. E mais este, e mais este, e mais este... Sem final. Ela queria tudo sem fim. O cigarro, o copo, os beijos que já dera, as noites de amor sem amor, a falta de compromisso, a conversa com uma amiga de sempre, a noite. Mariana não suportava o fim de cada coisa porque queria entender tudo naquela noite. Queria escrever um livro com cada gota do uísque, com cada fragmento de fumaça no ar.
Ah, menina levada essa. Sempre pela rua, pelos bares, pelos postos... tinha sede, tinha falta de calor das pessoas. Queria que qualquer vagabundo como ela a encontrasse ali. Paralisada, preguiçosa, satisfeita com apenas aquilo ali. Sempre encontrava alguém. Sempre ia pra casa depois de um tchau e mesmo odiando cada despedida de cada ser na face da terra, ela não era tão só assim.
terça-feira, 28 de agosto de 2007
Para Camila

Ela se chamava então, Poesia.
Menina feita com ares de pureza e de intensidade,
duas características que pouco se cruzam, mas que nela, Poesia,
faz uma rima.
A leio ao longe, sem poder tocar o papel,
sem sentir o cheiro da tinta ou do perfume com o qual foi escrita,
e descobri sem que alguém me dissesse,
seu nome, Poesia.
Uma pintura no rosto,
um rosto na natureza,
um sorriso estranho entre sorrisos que conheço
mas que posso dizer de conhecer?
Poesia é distante, vive longe e eu,
sinceramente não me importo.
Porque ela parece uma sensação,
e isso é a Poesia.
A conheci pelo nome de Poesia.
Menina feita com ares de pureza e de intensidade,
duas características que pouco se cruzam, mas que nela, Poesia,
faz uma rima.
A leio ao longe, sem poder tocar o papel,
sem sentir o cheiro da tinta ou do perfume com o qual foi escrita,
e descobri sem que alguém me dissesse,
seu nome, Poesia.
Uma pintura no rosto,
um rosto na natureza,
um sorriso estranho entre sorrisos que conheço
mas que posso dizer de conhecer?
Poesia é distante, vive longe e eu,
sinceramente não me importo.
Porque ela parece uma sensação,
e isso é a Poesia.
A conheci pelo nome de Poesia.
máscaras
Gosto dos alegres,
mas preciso dos tristes para ser doce.
Preciso também, as vezes, ser triste,
para que me olhem,
com um pouco mais de ternura.
mas preciso dos tristes para ser doce.
Preciso também, as vezes, ser triste,
para que me olhem,
com um pouco mais de ternura.
Oração da noite
Tive bronquite desde os três meses de idade. O médico diagnosticou ser asmática e me receitou logo, com poucos anos, o Berotec. Meu pai insiste na alérgica e no tratamento homeopático. Quando criança, tossia até provocar vômito, não por querer, pois na época ainda não me condenava. Porém, agora já está na hora.
Conheci todo tipo de simpatia e reza, abacaxi, sebo de carneiro, mel e diabo a quatro. Saquinho de cânfora no peito e muito agasalho no inverno. Evitei sereno e bebida gelada. Não bastou.
Hoje, o cigarro e as taças de vinho, debaixo da lua na janela não são nenhuma forma de morrer tuberculosa ou de cirrose aos 20 ou 24 anos como os poetas que amo. Não passa da celebração da vida e um tanto de esforço para acabar com ela.
Continuo com o Berotec e algum xarope caseiro.
Em cada crise, seja asmática ou alérgica, contemplo a magnitude dos meus erros. As noites de sereno e embriaguês são só um pouco de alegria. O riso destemperado comemora os amigos, o filho que tive e o que não tive, numa ode a todo o crime que cometi em todos os casos.
Não se desgaste em me punir pelos amores vagabundos e tortos que tenho. Não se gaste com preocupações sobre sentimentos nefastos que me habitam. Já faço o suficiente, por mim e por todo o mundo.
Demônios me deixem em paz que eu preciso dormir.
Amém.
Conheci todo tipo de simpatia e reza, abacaxi, sebo de carneiro, mel e diabo a quatro. Saquinho de cânfora no peito e muito agasalho no inverno. Evitei sereno e bebida gelada. Não bastou.
Hoje, o cigarro e as taças de vinho, debaixo da lua na janela não são nenhuma forma de morrer tuberculosa ou de cirrose aos 20 ou 24 anos como os poetas que amo. Não passa da celebração da vida e um tanto de esforço para acabar com ela.
Continuo com o Berotec e algum xarope caseiro.
Em cada crise, seja asmática ou alérgica, contemplo a magnitude dos meus erros. As noites de sereno e embriaguês são só um pouco de alegria. O riso destemperado comemora os amigos, o filho que tive e o que não tive, numa ode a todo o crime que cometi em todos os casos.
Não se desgaste em me punir pelos amores vagabundos e tortos que tenho. Não se gaste com preocupações sobre sentimentos nefastos que me habitam. Já faço o suficiente, por mim e por todo o mundo.
Demônios me deixem em paz que eu preciso dormir.
Amém.
segunda-feira, 27 de agosto de 2007
Provocação
"Estou cansada da minha própria hipocrisia. Até então, me cansava apenas da podridão da sociedade. Mas eu sou sociedade. A podridão está em mim. Estou cansada de me decepcionar com pessoas, que de ilustres passam a ser tremendos bundões. Pura entrega a corrupção de si mesmo. Tenho feito diversas CPI´s da Larissa. Faço minhas próprias acareações. Corrupta de mim mesma. Corruptora dos meus ideais e dos meus desejos mais profundos. Adepta ao mais fácil, por isso, o mais medíocre.Neruda disse um dia que estava memso cansada de ser homem. Eu só estou cansada de ser gente. Gente igual a todas as gentes. Gente urubu num dia e gente carniça no outro.Detesto odiar as pessoas que mais amo pelo simples fato de eu colocar a culpa das minhas amarras nelas. E o faço com tal veracidade que acredito nessa culpa mesmo sabendo que sou meu próprio cárcere.Eu tenho vergonha de causar vegonha nas pessoas e morro de pena que estas pessoas tenham vergonha de mim.Estou no fim da minha exaustão. Blehh"
Algo que escrevi, lá por novembro de 2006, entediada como hoje.
quarta-feira, 22 de agosto de 2007
Do que me falta
Fossas e dores são, no mínimo interessantes.
Porque são profundas,
têm a essência daquilo que me faz falta
em noites insones de embriaguês e riso.
E são como espelhos, talvez.
Estes que nem você, nem eu gostamos,
destes que desviamos no banheiro da balada ou em casa,
antes de sair e até dos vidros espelhados das vitrines nas ruas.
Mas eles são necessários e eles existem, mais do que isso.
E a gente existe e se reflete neles e chega uma hora,
em que nos trancam o caminho para que nos deparemos,
sem escapatória da nossa imagem,
gorda ou magra,
feia ou bonita,
suja ou limpa,
atraente ou imbecil.
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
Confusão
É só no riso que a dor se manifesta e essa contradição é tão difícil de entender como frases extensas e tudo no vazio é tão perturbador como as vozes que me rodeiam e as vezes, eu não entendo nada. Eu gosto de sentir que somos iguais, que não há vergonha nos bolsos, assim como não há dinheiro. Perdeu-se a noção, a direção, o cartão de crédito e a sanidade. Mas ergue-se então um monumental estado de satisfação e desdém.
Não é desaforo, é apenas transgressão. Fazer tudo aquilo que é errado para todo o mundo mundial. Transgredir é ser ilegal, romântico, imoral, desinteressado. O mau gosto é o gosto que tem na minha boca. Gosto do feio porque se trata apenas de um conceito invisível, uma coisa bem mais complexa que pensar em como o feio se torna belo e como o belo de todos me irrita.
Realmente eu não sei o que eu quero. E me chamam confusa porque busco saciar minha carência em braços grandes, em braços pequenos e naquilo que é fútil, meio animal, meio selvagem e também naquilo que é sensível, que é emotivo e é o que mais machuca. Sensíveis são cruéis, sempre.
Quase tudo que merece punição eu já fiz. Crimes e mais crimes. Falta muito pouco pra não haver nada que eu não tenha feito. E se eu já não sei o porquê estou nesta última linha de texto, isso é normal, é real, é natural.
sexta-feira, 17 de agosto de 2007
quinta-feira, 16 de agosto de 2007
Noites
A lua se despede,
sem mais cervejas, cigarros ou beijos
ela vai embora,
porque passou da hora,
e ficam a espera do sol, os bêbados prateados.
Um sol que invade a memória falha,
a cabeça pesada,
algum sofrimento que ficou.
E a hora de recomeçar,
com sobriedade,
a duras penas pensar, agir e sorrir.
Da noite, apenas sobrou um resto na garrafa,
o cheiro de lua que sai pelos poros,
a água que fica na boca
do beijo que se quis.
sem mais cervejas, cigarros ou beijos
ela vai embora,
porque passou da hora,
e ficam a espera do sol, os bêbados prateados.
Um sol que invade a memória falha,
a cabeça pesada,
algum sofrimento que ficou.
E a hora de recomeçar,
com sobriedade,
a duras penas pensar, agir e sorrir.
Da noite, apenas sobrou um resto na garrafa,
o cheiro de lua que sai pelos poros,
a água que fica na boca
do beijo que se quis.
quarta-feira, 1 de agosto de 2007
Precisão

Eu não quero me despedir da tua manha,
da tua farsa,
da tua caixinha de risos.
Não quero me desprender dos teus dedos,
das tuas mãos,
da tua teia de falsas emoções.
Mas eu preciso te deixar, ou, deixo de mim.
Eu preciso não mais te sufocar, vou me sufocar só.
Eu devo entender, me convencer,
me matar, sei lá.
E eu devo, muito mais do que quero,
tirar esse teu cheiro de tudo.
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